Psicoterapia pode ser definida por muitos como um método de tratamento onde alguém mais equilibrado ajuda o outro, menos equilibrado, na resolução de um problema; onde espera-se que o mais equilibrado seja o terapeuta. Idéias como auto-conhecimento, crescimento, adaptação, cura, e muitas outras são associadas à idéia dos resultados ou ganhos do processo terapêutico. O que penso e entendo sobre isso? Não concordo totalmente.
A psicologia, ao contrário do que o senso comum pensa, é mais do que o estudo da mente, do psiquismo, “da cabeça”. É uma ciência múltipla, que guarda muitas contradições e discordâncias, – “um espaço de dispersão do saber”, como escreve o mestre Garcia Roza. Nos meandros dessa (s) ciência (s) muitos pensamentos conflitantes convivem, sendo que o que se espera do psicólogo é que esse (em virtude, principalmente, dos embates epistemológicos e ideológicos das teorias), alia-se a um grupo, a uma escola ou tradição filosófica que aqueça, e respalde suas inquietações. Até existe abordagens para aqueles que gostam de muitas abordagens!
Eu escolhi a Psicoterapia Sistêmica. A psicoterapia sistêmica nasceu na segunda metade do século vinte, oriunda da cibernética e da teoria geral dos sistemas. Falar em terapia sistêmica é falar em Milton Erickson,
G.Bateson, e do Instituto de pesquisa mental em Palo Alto, os pioneiros nesse pensamento. A escola Estratégica de terapia de família, ou sistêmica (e as subsequentes escolas de terapia sistêmica) interpreta o problema, o sintoma, a questão, como um produto das relações sociais, e não como a miséria de um indivíduo isolado, desgraçado e infeliz. Indivíduo para esses caras, é o organismo em relação, nunca o animal isolado.
Outras escolas, dissidentes da escola Estratégica, seguiram no cenário das terapias sistêmicas, (trabalhando, sempre, com a família), como, principalmente, as psicanalíticas, a abordagem Estrutural de Minuchin, a Experiêncial de Satir e Witaker , e o Grupo de Milão de Palazolli. Com o advento da cibernética de segunda ordem, auto-referência em ciência, o olhar do observador como aquele que “pensa como pensa”- o construtivismo e contrucionismo social – como escrevem Maturana, Varela, Von Foester, dentre outros, ganha destaque . Essa virada epistemilógica reescreve a terapia de família, a posicionando numa epistemologia pos-moderna, – que conjuga o real como“realidade entre parênteses”.
O objetivo dessa pequena introdução, no entanto, não é esmiuçar as teorias e pontos de vista filosóficos, mas sim explicar meu ponto de vista e como funciona meu trabalho. Para mim, explico psicoterapia como um encontro. Não um encontro entre um humano equilibrado e outro não, mas um encontro entre, e apenas, seres humanos. O terapeuta, na minha reflexão do ser terapeuta, é um cara com os mesmos problemas do cliente. A diferença é que o terapeuta, estuda e treina a colocar as questões do cliente em análise, em reflexão.
Tudo o que o terapeuta oferece, e pode oferecer, como diria o velho Milton Erickson, é um ambiente favorável. Um ambiente favorável é um ambiente de respeito, diálogo e reflexão; que sempre abra novas possibilidades. Um ambiente favorável é aquele voltado para o surgimento da mudança, da diferença que faz diferença, de uma nova narrativa, de uma nova história, que possibilite novas ações e explicações mais eficientes sobre a realidade.
Sobre o processo psicoterapeutico, acho que apenas a palavra encontro já é suficiente para definir não só terapia, mas qualquer evento que faça-nos sentir melhor, que aumente nossa potência, que abra mais possibilidades: a magia da vida é investir em bons encontros, é experimentar, – mas sempre com parcimônia, pois morrer, como diz Woody Allen “é a ultima coisa que quero fazer na vida”. Outro que resume essa idéia de maneira brilhante e inspiradora é Cláudio Ulpiano:
“Todos os corpos têm potência. Isso modifica a teoria do poder. O poder não é alguma coisa que uns têm – poucos têm (não é?), como se diz – e muitos querem. Poder é aquilo que todos os corpos têm – porque a potência é a essência do corpo. A… essência do corpo é a potência de germinar. A essência do corpo é a potência de produzir acontecimentos. Por isso, o corpo consegue efetuar a sua vida de uma maneira superior – a partir do instante em que ele executa mais acontecimentos. Produzir experiências é o segredo do corpo. É o segredo da vida. O segredo da vida é a experimentação. É a produção dos acontecimentos”.
Sobre o processo da terapia, Milton Erikson contava a metáfora do cavalo para ilustrar sua prática. Uma vez o jovem Erickson encontrou um cavalo perdido, sem rumo e longe de casa. Erickson apenas sentou-se no cavalo e o deixou andar. Com efeito, o cavalo seguiu tranquilamente para seu destino, que era uma fazendo a alguns quilômetros da residência de Erickson. Quando perguntado o que fez para conseguir devolver o cavalo ao destino desconhecido, Erickson disse que não fizera nada, apenas manteve o cavalo na estrada, esse sabia o caminho.
Terapia, portanto, como eu vejo e pratico, é um encontro entre dois seres humanos, em que o cliente, na maioria das vezes voluntariamente, e o terapeutas constroem um ambiente de diálogo, na qual o cliente reflete sobre suas construções do real, buscando novos encontros, novas possibilidades. O terapeuta, como na metáfora de Erickson, mantém o cliente no rumo, nas tentativas, nas reflexões. Para que, assim, se possa criar condições de expansão, ou de otimização da potências do cliente, revelando novas possibilidades ; para fluir com a vida, transformando dificuldades em facilidades.
O terapeuta, agora buscando inspiração em I. Yalom, é um companheiro de viagem. Um ser humano que te ajuda a encontrar novas e diferentes soluções. Sendo suporte, rede, e companheiro nas dificuldades e alegrias desse processo. Processo, esse, que, como uma viagem, tem um fim esperado, e ,de uma forma ou de outra, acaba virando mais uma história.





vc está indo muito bem! gostei da abordagem sobre a culpa!
Oi Rita! Muito obrigado pelo elogio. Vamos la! Sempre em frete, pois, como diria o mestre José Cataldo, de quem sentimos saudades, “a oportunidade e cabeluda na frente e careca atrás”, portanto, devemos seguir o ritmo da vida. Fico muito feliz com seu apoio.
Um beijo.
Muito pertinente todas as colocações acima. Eu, na minha ignorância teórica do assunto, traduziria esse “encontro” conforme exemplificou a psicoterapia, como sendo o que acontece quando recorremos a um amigo(a) de inteira confiança para desabafarmos sobre algum problema que nos aflige. Com o advento da Internet e toda correria mais do dia-a-dia, as pessoas se afastaram dos prazeres simples do cotidiano tal como era antigamente, quando se encontravam nas praças defronte ao coreto para ouvir uma apresentação de música . Após, naturalmente se entabulava uma conversa descontraída uns com os outros, sem tempo determinado para findá-la. Tal conduta permitia que a conversa fluísse e assim idéias eram trocadas, conselhos eram dados e recebidos. Não se criava tanta “neura” por pouca coisa. O amigo podia ser um conhecido mais velho e experiente ou aquela pessoa que tinha real interesse em nos ouvir e ajudar. E é sabido que falando, invarialmente encontramos a resposta. Parece que hoje Amigos são uma espécie em fase de extinção. As pessoas se superficializaram tanto que, ao cumprimento, ninguém se importa de verdade em ouvir a resposta quando se pergunta “como tem passado” ou “está tudo bem?” Essa superficialidade, gerou a formação de perfis em sites de relacionamentos, onde o número e não a qualidade dos amigos que são agregados à página, é o que mais interessa. Restou-nos a possibilidade de obter um “amigo” junto aos profissionais das áreas voltadas à psique… Evolução dos tempos, diriam uns. Mas acredito que o resultado disso tudo ainda está aquém de qualquer previsão que hoje se faça e, temo por este, apesar de desejar que seja otimista. Adorei sua exposição sobre o assunto Ulisses, achei-a muito lúcida e aprendi bastante. Grande abraço!
Caro Ulisses,
parabéns pela iniciativa. O texto é bem claro até para leigos em Psicologia (em particular, Psicoterapia), como eu. Porém, você escreve muito bem e consegue passar uma ideia bem clara de sua visão sobre o tema. Tenho divulgado para algumas pessoas. Confio no seu sucesso. Um grande abraço, Edson Luiz